As tempestades das últimas semanas em Portugal têm deixado milhares de pessoas sem eletricidade, havendo ainda quem esteja a viver nestas condições. Falámos com uma especialista para perceber de que forma é que esta privação de energia, e não só, pode afetar a saúde mental.
Ainda está por contabilizar a totalidade dos estragos materiais causados pelas últimas tempestades em Portugal, mas os danos psicológicos também não podem ficar esquecidos, segundo alerta Patrícia Câmara, a presidente da Sociedade Portuguesa de Psicossomática.
À semelhança dos sintomas da depressão sazonal, relacionada com a ausência de exposição solar, a falta de energia, não só pela ausência de luz, pode provocar um “cansaço específico”.
Numa entrevista ao Lifestyle ao Minuto, a psicóloga e psicanalista Patrícia Câmara explicou de que forma é que a privação de energia pode condicionar o estado psicológico das populações afetadas.
Os dados mais recentes da E-REDES à hora da publicação desta notícia dão conta de cerca de “45 mil clientes sem energia devido ao surgimento de novas avarias e situações de inundações”.
Para Patrícia Câmara, quando existe um corte de eletricidade, também se poderá dar um corte daquilo que, “em psicanálise, poderíamos chamar um ambiente suficientemente estável”.
Entre danos materiais e outros não palpáveis, esta especialista identifica padrões de reação comuns.
Leia abaixo a entrevista completa.
Mesmo sem danos palpáveis, quais são os possíveis efeitos psicológicos de não ter energia em casa?
A eletricidade funciona, hoje, como uma extensão do nosso sistema de regulação. Ao sustentar ritmos, garante continuidade e amortece os sobressaltos. Quando falta, quando não há luz, internet, aquecimento, sem possibilidade de carregar um telemóvel, há uma quebra daquilo a que, em psicanálise, poderíamos chamar um ambiente suficientemente estável. A casa deixa de funcionar como uma base segura e de segurança e passa a ser um espaço imprevisível, por vezes vivido como potencialmente ameaçador, mesmo que objetivamente nada tenha sido destruído, mais ainda quando efetivamente foi.
Que tipo de ansiedade se desenvolve durante esse período de ausência de energia?
É nesse contexto que pode emergir o aumento da ansiedade basal, a sensação de vulnerabilidade ou desamparo, a irritabilidade e os conflitos familiares, alterações do sono e uma vivência de regressão, a sensação de estarmos a andar para trás. O sistema nervoso reage à perda de controlo. Não é a escuridão e o frio em si mesmos que pesam mais, mas aquilo que representam: interrupção, incerteza, falha de suporte. Quando os dispositivos que silenciosamente regulam a vida quotidiana desaparecem, o corpo fica mais exposto ao esforço de autorregulação.
Como reage o corpo perante estas circunstâncias?
A esse impacto junta-se um cansaço específico, o cansaço do escuro. Um cansaço que nasce da necessidade constante de compensar a falta, de antecipar dificuldades, de vigiar o ambiente. Cada gesto exige mais pensamento, mais energia, mais adaptação. A vida perde, mesmo que temporariamente, a fluidez habitual e torna-se mais pesada, não por perigo iminente, mas pelo excesso de esforço exigido para manter o mínimo funcionamento.
É por isso que a luta pela luz não é apenas técnica, mas profundamente relacional. Saber que há pessoas empenhadas em repô-la, técnicos no terreno, instituições a responder, tem um efeito regulador decisivo. Não elimina o desconforto, mas sustenta o sentido. O cansaço pode ser tolerado quando há a experiência de que alguém cuida. O que mais desorganiza não é a ausência temporária de eletricidade, mas a possibilidade de essa ausência ser vivida como abandono. Quando o escuro se associa à deceção com o outro, a falha deixa de ser circunstancial e passa a tocar a confiança, e é aí que a experiência verdadeiramente se desilumina de forma mais perigosa, porque carente de “quentinho”.
Para algumas pessoas, isto pode ser como um voltar ao século XVIII, mas nessa altura as pessoas não eram necessariamente infelizes (nem viviam com ansiedade por não terem energia).
No século XVIII não havia eletricidade, mas também não havia a expectativa de que ela existisse. A vida organizava-se segundo outros ritmos, outras dependências, outras formas de previsibilidade. O enquadramento material e simbólico era coerente com as possibilidades técnicas do tempo, e o psiquismo adaptava-se a esse horizonte. A ausência de luz elétrica não era vivida como falha, mas como condição. Não havia rutura entre o mundo esperado e o mundo vivido.
Qual é a diferença em termos psicológicos?
Hoje, a experiência é radicalmente diferente. Vivemos num contexto de disponibilidade contínua, em que a eletricidade é tão integrada que se tornou invisível. Quando falha, não falha apenas um recurso, falha a confiança de base de que o mundo responde. A privação atual não é uma privação simples, é uma interrupção abrupta da continuidade, e é essa quebra que desorganiza. O sofrimento não nasce apenas da falta em si mesma, mas da rutura do contrato implícito com a realidade, a ideia de que as coisas funcionam, de que há sustentação, de que o quotidiano se mantém.
Há ainda uma diferença crucial: no passado, a vida era mais limitada, mas menos acelerada e menos dependente de sistemas complexos e frágeis. Hoje, a nossa organização psíquica, social e relacional está profundamente entrelaçada com infraestruturas técnicas. Quando estas falham, não sentimos apenas desconforto, sentimos um colapso momentâneo do enquadramento que regula o tempo, o trabalho, a comunicação e o cuidado. É por isso que a experiência atual pode ser vivida como regressiva ou angustiante, não por nos aproximar de um passado sem eletricidade, mas por nos confrontar com a vulnerabilidade de um presente que parecia garantido e controlado.
Há algum exercício mental ou formas de amenizar os prejuízos psicológicos?
Perante a privação de energia, não se trata de pedir adaptação heroica nem de romantizar a adversidade. O primeiro gesto regulador é o reconhecimento da experiência tal como ela é. Nomear o desconforto, a irritação, o cansaço ou a ansiedade permite reduzir a sobrecarga interna. Quando a experiência é reconhecida, deixa de exigir tradução silenciosa pelo corpo. O que não se nomeia tende a intensificar-se; o que pode ser dito encontra já algum lugar. Não permitir desmentidos internos e externos é apanágio da possibilidade de gerir emocionalmente a situação.
Um segundo movimento passa pela reorganização mínima do tempo e do espaço. Pequenos rituais, horários simples, gestos repetidos criam continuidade onde ela foi interrompida. Não se trata de “ocupar” o tempo, mas de lhe devolver forma. O sistema nervoso responde melhor quando encontra alguma previsibilidade, mesmo em contexto de instabilidade. Essa organização não elimina o cansaço, mas impede que ele se transforme em desorientação.
Por fim, importa distinguir desconforto de ameaça. A ausência de energia pode ser vivida como invasiva, mas nem sempre corresponde a um perigo real. Recolocar essa diferença ajuda a conter a escalada ansiosa. A ligação aos outros, falar, partilhar recursos, manter contacto sempre que possível, funciona como regulador central. O efeito mais protetor não vem de técnicas sofisticadas, mas da experiência de não estar só. Quando há relação, o impacto psicológico da privação tende a ser menos desorganizante e mais transitório. A qualidade da informação disponível sobre a situação que se está a viver é fulcral para tornar possível a gestão emocional (psicológica) do momento.
E a perda de bens materiais devido a uma tempestade, que impacto psicológico pode ter?
Como sabemos, a perda de bens materiais devido a uma tempestade tem um impacto psicológico que ultrapassa largamente o valor económico daquilo que foi perdido. Os objetos, a casa, os espaços habitados são depósitos de história, de investimento afetivo, de continuidade biográfica. Quando são destruídos ou danificados, o que se perde não é apenas funcionalidade, perde-se também uma parte do fio que liga o passado ao presente. Por isso, é frequente que a reação inicial seja de choque, incredulidade ou anestesia emocional, antes mesmo de surgir tristeza ou raiva.
Esta experiência pode ser vivida como uma intrusão violenta no espaço que deveria proteger. A casa, enquanto extensão do corpo e do self, deixa de cumprir a sua função de abrigo simbólico. Surgem sentimentos de desamparo, injustiça e medo de repetição, acompanhados por uma sensação de exposição que persiste mesmo depois da tempestade ter passado. Em algumas pessoas, esta quebra ativa memórias de perdas anteriores ou de experiências precoces de insegurança, amplificando o impacto emocional.
O que muda depois do choque inicial?
A longo prazo, a forma como esta perda é reconhecida e acompanhada é decisiva. Quando a destruição material é minimizada ou tratada apenas como um problema técnico, o sofrimento tende a cristalizar. Quando, pelo contrário, há validação do luto, apoio concreto e resposta organizada, a experiência pode ser integrada sem se tornar traumática. A perda deixa marcas, mas não necessariamente feridas abertas. O que faz a diferença não é apenas o que se perdeu, mas se houve ou não um outro que ajudou a sustentar o sentido depois da perda.
Que efeitos produzem a longo prazo estas duas situações, apesar de serem muito diferentes?
Apesar de muito diferentes, a privação temporária de energia e a perda de bens materiais produzem efeitos que se organizam em torno de um mesmo eixo: a continuidade. A médio e longo prazo, ambas podem deixar marcas na forma como a pessoa percebe a estabilidade do mundo e a sua própria segurança. Quando a experiência é breve, reconhecida e acompanhada, tende a ser integrada como episódio de desgaste e adaptação. Quando se prolonga ou é vivida em isolamento, pode reforçar estados de ansiedade de base e uma maior sensibilidade à incerteza.
No caso da privação de energia, o efeito mais frequente é um aumento da vigilância e da antecipação. Nestes casos, ficamos mais atentos a sinais de falha, mais dependentes de garantias externas, mais sensíveis a interrupções. Já a perda material significativa pode inscrever-se de forma mais profunda, ativando respostas de hipervigilância, medo de repetição ou retraimento, sobretudo quando há história traumática prévia ou perdas não elaboradas.
Em ambos os casos, o fator decisivo não é apenas o acontecimento, mas a resposta relacional e institucional que se segue. A presença de apoio, a nomeação do impacto e a reposição de sentido funcionam como fatores de proteção. Quando isso falha, o risco é que a experiência se transforme numa ferida de confiança, mais do que numa memória difícil. A longo prazo, o que mais pesa não é a tempestade nem o escuro, mas a forma como ficamos ou não acompanhados depois deles.
De: https://sapo.pt

