A ansiedade, o stresse e o esgotamento que marcam a vida contemporânea podem ter uma explicação mais profunda do que aparentam. Em “O cérebro em evolução”, o neurologista britânico Paul Goldsmith defende que o cérebro humano continua moldado por milhões de anos de evolução num mundo muito diferente do atual. A obra explora o desajuste entre essa herança biológica e as exigências do século XXI. Publicamos um excerto do livro.

A ideia de que o cérebro humano existe num permanente desfasamento face ao mundo moderno tem vindo a conquistar terreno na literatura de divulgação científica. É também a premissa do livro O Cérebro em Evolução, do neurologista e neurocientista britânico Paul Goldsmith, obra editada em Portugal pela Ideias de Ler

O ponto de partida é uma interrogação que atravessa a experiência contemporânea: por que razão, num tempo em que a humanidade dispõe de mais conhecimento, tecnologia e conforto material do que em qualquer momento anterior da sua história, os níveis de ansiedade, stresse e esgotamento não cessam de aumentar? A resposta, sustenta o autor, pode residir no facto de o cérebro humano ter sido moldado ao longo de milhões de anos para sobreviver num ambiente ancestral radicalmente distinto daquele em que hoje nos movemos.

“Quantas vezes nos sentimos frustrados por não atingirmos os resultados que definimos para nós próprios?”, interroga Goldsmith. Para o neurocientista, a ansiedade e o burnout não devem ser interpretados como meras fragilidades individuais, mas antes como sintomas de um desajuste estrutural entre o ritmo acelerado da modernidade e os mecanismos evolutivos que conformam o cérebro humano.

Ao longo da obra, Goldsmith percorre diferentes sistemas cerebrais – da motivação às emoções e à tomada de decisão –, procurando elucidar por que motivo reagimos de forma tão intensa à pressão constante do quotidiano moderno, seja ela induzida pelas redes sociais, pela competição profissional ou pela exigência de produtividade permanente. A argumentação articula investigação em neurociência com episódios extraídos da prática clínica do próprio autor.

Paul Goldsmith é neurologista e investigador em neurociência evolucionista. Licenciou-se com distinção tripla em Ciências Naturais pela Universidade de Cambridge e foi distinguido com uma bolsa clínica da Universidade de Oxford. Prosseguiu a formação médica de pós-graduação em Oxford, Cambridge e no National Hospital for Neurology and Neurosurgery, em Londres, tendo posteriormente concluído um doutoramento em Neurociência do Desenvolvimento em Cambridge. É atualmente professor convidado no Imperial College London, no Institute of Global Health Innovation.

Publicamos um excerto do livro.

Introdução

O cérebro ancestral num mundo moderno



Vivemos numa era de paradoxos. Nunca como agora a humanidade teve acesso a tanto conhecimento, a tantas ferramentas e a tanta abundância material. Conseguimos alterar genes, explorar a inteligência artificial e comunicar instantaneamente com qualquer parte do mundo. E, contudo, não obstante estes avanços extraordinários, os níveis de stresse, ansiedade e depressão batem recordes. O burnout é comum, a solidão está a aumentar e mesmo aqueles que aparentam ter sucesso sentem muitas vezes uma insatisfação incomodativa. Porque é que, apesar de todo o nosso progresso, tantas pessoas sentem que algo não está bem?

Este livro dá uma resposta. Enquanto neurologista e neurocientista evolucionista, observo diariamente como o nosso cérebro – moldado ao longo de milhões de anos para sobreviver num mundo ancestral – tem dificuldade em funcionar de forma ideal num ambiente moderno em constante mudança. O mundo transformou-se a um ritmo impressionante, mas as estruturas nucleares do nosso cérebro mantiveram-se, em grande parte, inalteradas. Este livro aborda a forma como esse desajuste entre a nossa estrutura cerebral ancestral e a vida moderna tudo influencia: das nossas emoções e decisões às relações, à saúde mental e até às estruturas da sociedade.

No seu cerne, o nosso cérebro é uma ferramenta de perduração cuja principal função é assegurar que sobrevivemos tempo suficiente para transmitirmos os nossos genes. Tudo o resto – as nossas emoções, motivações e sentido de propósito – emerge desta função central. Este princípio fundacional explica por que motivo nos comportamos como nos comportamos, porque somos atraídos para determinados padrões de pensamento e ação, e porque sentimos tantas vezes dificuldades em lidar com a vida moderna.

A maioria dos livros sobre psicologia e neurociência foca-se ou na complexidade do cérebro ou em conselhos práticos para melhorar o bem-estar mental. Este livro faz a ponte entre ambos. Começamos pelos processos fundamentais aprimorados pela evolução – aqueles que regulam a emoção e a motivação – e vamos até às capacidades sofisticadas que nos tornam singularmente humanos. Ao longo do percurso, revelamos não apenas porque é que as coisas correm mal, mas também o que pode fazer em relação a isso.

A perspetiva central deste livro é que muitas das nossas dificuldades modernas – do stress crónico à ansiedade social e à dificuldade em manter a concentração – não são falhas pessoais, mas reflexos de um desfasamento fundamental entre o ambiente para o qual o nosso cérebro evoluiu e aquele em que vivemos hoje. Tendo consciência disto, podemos deixar de nos culpar por aquilo que entendemos serem desadequações nossas e começar a fazer mudanças relevantes, seja ao adaptar os nossos comportamentos ou ao reformular os nossos ambientes, de forma a adequá-los melhor ao cérebro que temos.

O livro segue uma abordagem de dentro para fora, começando pelas estruturas mais profundas e ancestrais do cérebro – os circuitos centrais que regulam a sobrevivência e impulsionam as nossas motivações fundamentais – e avançando progressivamente para fora, para as partes que evoluíram mais recentemente, responsáveis pelo pensamento complexo, pela interação social e pelo raciocínio abstrato. Cada capítulo foca-se numa função-chave do cérebro, explorando as suas origens evolutivas, o modo como se manifesta na vida moderna e o que acontece quando é levada ao seu limite.

Pelo caminho, vamos passar pela clínica de neurologia, aprendendo com pacientes cujos estados revelam os princípios subjacentes do cérebro quando algo corre mal, assim como com pessoas comuns, cujas lutas e conquistas ilustram as consequências quotidianas da nossa herança evolucionista. Partilharei convosco princípios-chave dessa herança evolucionista que moldam a nossa experiência enquanto seres humanos, que designei como “Princípios de ser humano”. Vamos explorar os avanços mais recentes da neurociência e abordar formas práticas de trabalharmos com, e não contra, o nosso cérebro ancestral, para vivermos vidas mais felizes e saudáveis. Analisaremos também a forma como a sociedade está a evoluir, embora com sistemas que nem sempre estão otimizados para o cérebro que temos. Apesar de moldarmos o nosso ambiente, somos também moldados por ele, e reconhecer esta interação pode ajudar-nos a lidar mais eficazmente com a vida moderna.

A minha esperança é que, no final desta viagem, passe a ver o seu cérebro – e as suas dificuldades – com uma nova clareza. Este não é um livro de autoajuda no sentido tradicional, mas espero que lhe traga uma compreensão mais profunda das forças que moldam os nossos pensamentos e ações, e de como podemos fazer melhores escolhas – não apenas enquanto indivíduos, mas também como sociedade. Se queremos prosperar no mundo moderno, devemos começar por compreender a máquina ancestral que temos dentro da nossa cabeça.

Importa referir que a neurologia é o estudo não apenas do cérebro, mas também da medula espinal, dos nervos e dos músculos.

CAPÍTULO UM
O cérebro de continuidade



Recebi na minha consulta John, um professor reformado de 67 anos e juiz de paz no ativo. Havia-me sido encaminhado devido a agravamento de contrações musculares e a fraqueza. Parecia magro. Talvez os músculos estivessem atrofiados, ainda não era possível saber. O corpo estava escondido por trás de um pesado fato de tweed e de uma gravata com nó Windsor – uma indumentária que transmitia uma confiança agora abalada pelos seus piores receios. Seria doença do neurónio motor, uma doença que vai paralisando lentamente, aprisionando a pessoa num túmulo vivo?

À medida que o examinava, os sinais reveladores começavam a acumular-se. A língua atrofiada e a tremer, os músculos debilitados em torno das omoplatas, do bíceps e da mão esquerda. Quando bati no tendão do bíceps, o braço dele saltou de forma súbita, levando-o a soltar uma gargalhada inesperada. A esposa comentou que ele se ria com coisas triviais, desatando a chorar logo a seguir. Esta instabilidade emocional fazia parte do quebra-cabeças do diagnóstico, sendo algo que indiciava uma degeneração não apenas dos nervos motores periféricos, mas também das suas ligações nos lobos frontais do cérebro, resultando numa perda de controlo emocional. Tive de lhe dizer que os seus piores receios se confirmavam.

Não obstante o prognóstico sombrio, John recusou-se a aceitar que não existiam tratamentos com impacto na doença. Procurou terapias alternativas no estrangeiro, agarrando-se à esperança mesmo à medida que a sua condição regredia – primeiro da bengala para o andarilho, depois da cadeira de rodas manual para a elétrica. Quando deixou de conseguir engolir e perdeu a fala, optou por uma sonda de alimentação e ventilação domiciliária, comunicando através de movimentos oculares. A família, sem vontade de desistir, insistiu no tratamento completo para qualquer pneumonia que surgisse.

O que é que nos leva a continuar a lutar, a seguir em frente, mesmo perante probabilidades tão esmagadoras? Este desejo inato de continuar, esta vontade de viver, é extremamente poderoso. Trata-se de um instinto primitivo, particularmente evidente quando se trata dos nossos filhos, como as histórias comoventes que ouvimos de pais que lutam para manterem os seus bebés vivos, não obstante sofrerem de alguma degeneração cerebral gravíssima. Contudo, como demonstra John, esse instinto está presente em todas as idades, por vezes até ao último momento.

Compreender estas motivações e a forma como o nosso cérebro evoluiu para as gerar é fundamental na nossa procura de ajuda para prosperarmos no mundo moderno. Como afirmou o filósofo Heráclito: “A única constante na vida é a mudança.” Este paradoxo está no cerne da nossa existência biológica: para perdurar, a vida tem de se adaptar e evoluir constantemente. Começaremos pelo início, com uma compreensão fundamental de como este princípio da mudança torna possível a continuidade da própria vida.

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