O stress crónico, uma perturbação de ansiedade e um quadro depressivo são condições que causam, sobretudo, mal-estar psicológico. Mas, em alguns casos, o sofrimento emocional também pode causar sintomas físicos. O que é a somatização? Como distinguir sintomas somáticos de uma doença física? Como lidar?
O que é a somatização?
A somatização “é uma expressão do sofrimento psicológico no corpo”, ou seja, é “quando existem sintomas físicos que não são explicados por uma doença física”, adianta Filipa Caetano, psiquiatra e psicoterapeuta cognitivo-comportamental, em declarações ao Viral.
Por exemplo, “um quadro de ansiedade ou depressão pode manifestar-se por sintomas físicos, além dos sintomas psíquicos”.
Isto acontece devido à ligação do cérebro ao resto do organismo. “O nosso corpo é composto por terminações nervosas”, fazendo com que o cérebro tenha uma ligação direta com todo o nosso organismo, seja pela sensibilidade, seja pela capacidade de sentir a dor”, explica a médica.
Por isso, “quando o cérebro está ‘em sofrimento’, pode haver a transmissão disso para o corpo, através do sistema nervoso simpático e parassimpático, que regulam os nossos órgãos e a resposta ao stress”, esclarece.
Na perspetiva de Filipa Caetano é fundamental sublinhar que “estes sintomas não são inventados, são sintomas reais”.
No mesmo sentido, num texto da Associação Americana de Psiquiatria realça-se a importância de “reconhecer o impacto que estes sintomas podem ter na perda de funcionalidade e demonstrar empatia pelo medo e pela confusão que inevitavelmente acompanham estas perturbações”.
Existe ainda estigma em torno da questão da somatização. “Muitas vezes, os pacientes sentem que não são ouvidos” e que estes sintomas são desvalorizados por médicos e familiares. Isso faz com que estas pessoas “nem sequer procurem ajuda especializada”, revela Filipa Caetano.
A somatização pode surgir de diversas formas. A psiquiatra destaca “as queixas abdominais”, como, por exemplo, “a sensação de enfartamento”, “diarreia” e “obstipação”.
A sensação de ter “apertos no peito constantes” e “falta de ar” também são tipos de somatização comuns, bem como dores no corpo, sobretudo “a nível da parte superior das costas e nas omoplatas”, exemplifica.
Tanto o stress como um quadro de ansiedade ou depressão podem ser a causa da somatização.
Qualquer pessoa pode “somatizar”, mas o que as pessoas sentem em relação a estes sintomas, a forma como reagem e a duração dessas reações e sentimentos (se persistirem durante seis meses ou mais) é que podem fazer da somatização uma perturbação.
É recomendado procurar ajuda especializada quando a pessoa sente “ansiedade extrema em relação aos sintomas”, “preocupar-se com a possibilidade de sintomas leves serem um sinal de doença grave”, “gasta muito tempo e energia a lidar com preocupações de saúde” e tem “dificuldade em funcionar devido a pensamentos, sentimentos e comportamentos relacionados com os sintomas”, lê-se num texto do MedlinePlus (um site de informação sobre saúde que pertence aos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos).
“Procurar o médico para realizar vários exames e procedimentos, mas não acreditar nos resultados se estes forem normais” e “sentir que o médico não leva os seus sintomas suficientemente a sério ou não tratou o problema de forma adequada” também são sinais de alerta.
A somatização é mais comum em pessoas “que têm mais tendência para não exteriorizar as emoções”, salienta Filipa Caetano.
Pessoas que “têm tendência a serem mais preocupadas, mais cismáticas ou até pessoas que não conseguem identificar bem as emoções, por exemplo, se estão ansiosas, zangadas ou tristes”, também correm maior risco.
Como diferenciar a somatização de uma doença física?
A única forma de diferenciar de uma doença física é através de “um diagnóstico de exclusão, investigando e fazendo meios complementares de diagnóstico, colhendo uma história clínica completa e entrevistando familiares, se for preciso”, explica Filipa Caetano.
Também é importante distinguir doenças psicossomáticas de somatização. As doenças psicossomáticas são doenças físicas causadas ou agravadas sobretudo pelo stress.
“Por exemplo, doenças autoimunes, a psoríase e a doença inflamatória intestinal (como a doença de Crohn) agravam com o stress”, aponta.
Como lidar com a somatização?
Em primeiro lugar, “é importante identificar se o doente está a somatizar por algum quadro de base, por exemplo, uma perturbação de ansiedade ou uma perturbação depressiva, e tratar essa causa”, adianta Filipa Caetano.
Depois, “é importante fazer psicoterapia cognitivo-comportamental, porque, muitas vezes, estes pacientes tendem a ser mais cismáticos, hiperpreocupados e hipervigilantes com o que se passa no corpo”.
Por exemplo, para uma pessoa sem uma perturbação de somatização, uma dor de barriga é apenas uma dor de barriga. Na perspetiva de uma pessoa com somatização, uma dor de barriga pode significar “que está muito doente e pode falecer por causa disso”.
A psicoterapia “é sempre necessária” neste contexto precisamente para “se trabalhar a hipervigilância e as crenças relacionadas com os sintomas”, defende a especialista.
Além disso, as medidas de estilo de vida também são essenciais. A prática regular de exercício físico e a alimentação equilibrada e saudável ajudam a gerir a somatização.

