No TikTok alega-se que comer alimentos com glúten aumenta o risco de ter doença de Alzheimer. Isto porque, sugere a autora do vídeo partilhado, “o glúten é considerado uma neurotoxina”, ou seja, “é um veneno para os neurónios”. Mas será mesmo assim?
O glúten aumenta o risco de desenvolver doença de Alzheimer?
Não há estudos que comprovem que comer alimentos com glúten aumenta o risco de desenvolver a doença de Alzheimer. Quem o diz, em declarações ao Viral, é Luísa Alves, neurologista no Hospital Lusíadas Alfragide e membro da Sociedade Portuguesa Neurologia (SPN).
“Não há evidência de que a restrição de glúten na dieta tenha benefícios ou reduza o risco de deterioração cognitiva nas pessoas sem diagnóstico de doença celíaca, ou de outro tipo de sensibilidade ao glúten”, explica a médica.
No mesmo sentido, uma alimentação rica em glúten também não aumenta o risco de desenvolver demência, nomeadamente doença de Alzheimer .
De facto, “o glúten está associado a efeitos adversos como disrupção do eixo microbiota-intestino-encéfalo”, aponta Luísa Alves.
A neurologista explica que “os animais coevoluíram com uma grande diversidade de microrganismos, coletivamente conhecidos como o microbioma”.
Estes microrganismos “são moduladores importantes de várias funções, como as gastrointestinais, as imunes e as metabólicas”. Além disso, “o sistema nervoso central regula o funcionamento do sistema gastrointestinal”.
Tal como esclarece a médica, “o eixo microbiota-intestino-encéfalo refere-se à comunicação bidirecional entre o sistema nervoso e o microbioma gastrointestinal”.
No entanto, Luísa Alves considera importante sublinhar que o glúten ingerido só “gera uma resposta imune em indivíduos suscetíveis”.
Neste contexto, “o glúten é decomposto em péptidos grandes que atravessam a barreira intestinal e desencadeiam uma resposta inflamatória”. Dá-se “um aumento da permeabilidade intestinal, permitindo a entrada de metabolitos digestivos tóxicos, bem como bactérias que podem eventualmente atingir o sistema nervoso central”.
No entanto, estes efeitos não se verificam em pessoas sem doença celíaca ou intolerância ao glúten. “Num estudo norte-americano que envolveu 13 mil e 494 mulheres sem doença celíaca, com idade média de 60,6 anos, seguidas ao longo de 2 décadas, o consumo a longo termo de glúten não revelou qualquer associação com resultados em testes cognitivos”, refere a neurologista.
Nem faz sentido alegar que o glúten é “uma neurotoxina”, como se diz no vídeo partilhado no TikTok, já que “o glúten não tem efeitos negativos nas pessoas sem doença celíaca ou outras formas de sensibilidade ao glúten”, lembra a médica.
Qual o impacto da alimentação no declínio cognitivo e no desenvolvimento da doença de Alzheimer?
Tal como já tinha explicado o neurologista Rui Araújo, “não se pode dizer que um determinado tipo de alimentação pode levar ao tratamento ou à cura da doença” de Alzheimer.
Alguns “estudos epidemiológicos sobre nutrição reportam frequentemente, embora de forma inconsistente, uma associação entre dieta e declínio cognitivo, demência e doença de Alzheimer”, adianta Luísa Alves.
A dieta mais estudada neste contexto “é a dieta mediterrânica, rica em vegetais, frutos secos, frutos vermelhos, feijões, frutos do mar e cereais integrais”.
Contudo, “os ensaios clínicos têm reportado que as intervenções nutricionais ou dietéticas não reduzem o declínio cognitivo”, apesar de haver “resultados positivos em alguns subgrupos” que carecem de mais investigação.
Ainda assim, “a verdade é que a adesão a uma dieta rica em fruta e pobre em alimentos ultraprocessados é boa para muitas doenças e afeta muitos fatores de risco para demência, como a obesidade, a diabetes, a hipertensão e a dislipidemia”, explica a neurologista.
Por esse motivo, “costumamos aconselhar uma alimentação saudável (seguindo, por exemplo, a dieta mediterrânica), quer em pessoas saudáveis, quer em pessoas com já com diagnóstico de perturbação neurocognitiva” .
A alimentação, neste contexto, “é um fator importante na prevenção de danos subsequentes, ou seja, se a pessoa encetar um estilo de vida saudável no qual se insere também a alimentação, pode ter um percurso da demência mais favorável, ou não ter uma evolução tão acentuada”, esclarecia Rui Araújo.

