Shinrin-yoku, o banho de floresta japonês, reduz o cortisol em 13% e já é prescrito por médicos na Suécia. Em Portugal, o ISPUP também aposta na prática.
Imagine que o seu médico, em vez de lhe receitar um comprimido, lhe prescreve um passeio na floresta. Parece ficção, mas já acontece. A Suécia lançou um programa pioneiro que incentiva médicos a recomendar banhos de floresta como parte de tratamentos de bem-estar. E a ciência tem cada vez mais razões para apoiar a ideia.
Tudo começou no Japão, em 1982, quando a Agência Florestal propôs pela primeira vez integrar o shinrin-yoku — literalmente, «banho de floresta» — nas recomendações para um estilo de vida saudável. Desde então, a prática ganhou investigação sólida e reconhecimento internacional.
O que diz a ciência sobre caminhar entre árvores
Os números impressionam. Uma investigação de Yoshifumi Miyazaki, da Universidade de Chiba, publicada em 2009, demonstrou que o contacto com ambientes florestais reduziu a concentração de cortisol no sangue em 13%, a pressão sanguínea em 2% e a frequência cardíaca em 6%. Mais: a atividade do sistema nervoso parassimpático — o responsável pelo relaxamento — aumentou 56%.
O Instituto de Pesquisa de Produtos Florestais do Japão confirmou esta linha. O sangue de pessoas que caminham na floresta apresenta níveis significativamente mais baixos de cortisol e menor atividade no lobo pré-frontal do cérebro do que o de quem percorre a mesma distância na cidade. Em termos simples: a floresta acalma o corpo e o cérebro de formas que o asfalto não consegue.
Há ainda o efeito invisível das árvores. As fitoncidas — óleos essenciais antimicrobianos como terpenóides, pinenos e limonenos — são libertadas naturalmente pelas árvores e apoiam a função imunitária de quem as respira. Os monoterpenos, em particular, estimulam a produção de células NK (natural killer cells), uma linha de defesa importante do nosso organismo.
Da floresta para a receita médica
A Suécia foi mais longe. Lançou o programa «The Swedish Prescription», uma iniciativa que incentiva médicos a prescrever viagens ao país — incluindo banhos de floresta, mergulhos em águas frias e o tradicional fika — como parte de tratamentos de bem-estar. Com 69% do território coberto por florestas e os melhores índices de qualidade do ar na Europa, o país tem argumentos de sobra.
Susanne Andersson, CEO da Visit Sweden, afirmou que «visitar a Suécia é como um remédio natural para a saúde» e que médicos de diferentes países já demonstram interesse pela proposta. Um estudo da YouGov mostrou que, embora a maioria das pessoas nunca tivesse ouvido falar de «prescrições naturais», quase dois terços dos inquiridos seguiriam este tipo de recomendação se aconselhada por um médico.
Roger Ulrich, da Texas A&M University, já tinha mostrado que pacientes hospitalares recuperam mais rapidamente quando o quarto dá para um espaço verde — precisam de menos analgésicos e sofrem menos náuseas. A natureza cura, mesmo quando vista pela janela.
E em Portugal?
Os banhos de floresta são hoje reconhecidos internacionalmente como uma das principais intervenções de promoção de saúde baseadas na natureza. Em Portugal, o ISPUP — Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto — organizou sessões de banhos de floresta no Parque da Cidade do Porto, integradas no projeto LoNePlaces, financiado pelo FEDER e pela FCT, dedicado ao estudo do papel do espaço urbano na solidão.
Já no que toca a prescrições médicas ligadas à natureza, o Governo comparticipa em 35% os tratamentos termais prescritos no SNS, com limite de 110 euros anuais por utente. A prescrição é feita pelo médico de família, tem validade de um ano, e cada tratamento deve durar entre 12 e 21 dias. Não é um banho de floresta, mas mostra que o princípio — natureza como terapia — já tem enquadramento legal no país.
No Japão, a prática evoluiu para disciplina científica. Em 2012, o imunologista Dr. Qing Li fundou a «silvoterapia» como área interdisciplinar. Em 2020, existiam 65 bases de terapia florestal certificadas no país, com guias e terapeutas formados sob supervisão da Universidade de Chiba e da Escola de Medicina de Nippon.
O que pode fazer já
Não precisa de ir ao Japão nem de esperar por uma receita médica. Procure um parque ou mata perto de si — a Serra de Sintra, a Mata do Buçaco, o Parque da Cidade do Porto — e caminhe devagar, sem telemóvel, durante pelo menos 20 minutos. Respire fundo. Repare nas texturas, nos sons, nos cheiros. É simples, é gratuito, e o seu corpo vai agradecer.

