Há um novo teste que permite auxiliar a confirmar ou excluir a patologia amiloide, característica da doença de Alzheimer, através de uma simples colheita de sangue. Neurologista explica ao SAPO o que o pTau217 pode trazer à saúde.

Doenças cognitivas, neurológicas, demências, Alzheimer: estima-se que 75% das pessoas que sofrem condições semelhantes em todo o mundo não estejam diagnosticadas; e o tempo médio de identificação de um doente, após revelar os primeiros sintomas, chega a três anos e meio. E se a doença de Alzheimer pudesse ser detetada precocemente e através de um “simples” teste sanguíneo? Foi a esta pergunta que uma farmacêutica decidiu dar resposta, de forma a encontrar uma solução que permitisse melhorar o diagnóstico e, consequentemente, criar condições para os doentes de Alzheimer começarem o tratamento a uma condição degenerativa e que não tem o mais cedo possível, atrasando os efeitos o mais possível.

A investigação culminou no anúncio recente da Roche de que foi possível obter a marcação CE para um “teste sanguíneo pioneiro que promete transformar o diagnóstico da doença de Alzheimer”. “Este novo teste pTau217, desenvolvido em colaboração com a Eli Lilly and Company, permite auxiliar a confirmar ou excluir a patologia amiloide, característica da doença de Alzheimer, através de uma simples colheita de sangue, com uma exatidão comparável aos métodos invasivos e de custo elevado utilizados até agora”, explica-se. Sendo um teste realizado em equipamentos amplamente instalados em laboratórios e hospitais por todo o país, será possível a total automatização e um alto rendimento, graças à capacidade de processar centenas de amostras por hora, permitindo que a inovação chegue rapidamente à rotina clínica nacional.

Em que é que esta conquista pode influenciar a realidade das pessoas que vivem com este tipo de doenças? Para a diretora de serviço de Neurologia da ULS de Coimbra, há vantagens a varios níveis. “Estes novos testes, mais cómodos e acessíveis, vão contribuir para identificar um número maior de casos, de forma mais exata e mais célere”, explica ao SAPO a professora Dra. Isabel Santana, apontando outras portas que se abrem com este teste. “Os avanços científicos nesta área têm ainda a potencialidade de ajudar a esclarecer as causas e principais mecanismos destas doenças”, diz a médica neurologista que tem estudado o Alzheimer.

O que representa, na prática clínica, a chegada deste teste para a deteção da doença de Alzheimer, sobretudo tendo em conta que até agora o diagnóstico dependia de métodos invasivos ou dispendiosos e sobretudo o que representa a identificação precoce na possibilidades de controlo ou atraso da evolução?
Os biomarcadores de sangue para Doença de Alzheimer têm o benefício para o doente de serem mais cómodos e menos dispendiosos e por isso mais acessíveis. Para as unidades de saúde, há a vantagem de aumentar a acessibilidade ao diagnóstico, com benefício financeiro (preço mais acessível), e de possibilitar ao médico um diagnóstico mais precoce e mais exato de Doença de Alzheimer, obviamente com maior possibilidade de acesso a um tratamento por parte do doente. Mais importante: respondem a uma necessidade de um diagnóstico mais simples numa situação de elevada prevalência, como a demência, que não era possível assegurar pelos meios de diagnóstico até agora disponíveis (escalabilidade).

É ainda cedo para avaliar o impacto no retardamento da evolução, mas um diagnóstico mais precoce será sempre importante nesta trajetória.

Estima-se que até 75% das pessoas com demência permaneçam por diagnosticar. De que forma este novo teste pode encurtar também esse percurso e mudar a experiência dos doentes e das suas famílias?
A Doença de Alzheimer representa cerca de 60% dos casos de demência. Estes novos testes, mais cómodos e acessíveis, vão contribuir para identificar mais casos desta forma de demência, permitindo ainda diagnosticá-la de forma mais exata e mais célere. Mas o diagnóstico de Doença de Alzheimer não se encerra num marcador biológico. E existem outras causas de demência – haverá sempre necessidade de opiniões de especialistas que conjugam diversas evidências para se chegar a um diagnóstico clínico.

Certo, e qual é o grau de fiabilidade do teste pTau217?
O teste ptau217 realizado nas melhores condições (técnicas, laboratórios, processamento, validação) pode atingir valores de capacidade de diagnóstico (acuidade) muito elevados e até eventualmente superiores a 90%.

E como deve ser interpretado um resultado (seja positivo, negativo ou indeterminado) no contexto da avaliação clínica de um doente com queixas cognitivas?
A interpretação destes resultados com vista a um diagnóstico de Alzheimer ou de outra forma de demência implica, como foi dito, a opinião de um especialista e a convergência de diversas evidências clínicas. No estado atual do conhecimento, o diagnóstico não deve basear-se exclusivamente neste resultado.

Também não existe cura para o Alzheimer, mas o diagnóstico precoce é fundamental para agir desde o primeiro momento. O que significa esse tempo ganho para o doente mas também para o serviço de saúde?
“Tempo é cérebro” é uma afirmação bem conhecida no âmbito do AVC e também se aplica à demência. As implicações nos ganhos em saúde no presente são mais limitadas na demência – precisamos de tratamentos mais eficazes.

Que impacto podem ter estes testes de biomarcadores sanguíneos na forma como os sistemas de saúde, incluindo o português, vão organizar o diagnóstico, o acompanhamento e o acesso a terapêuticas e ensaios clínicos nos próximos anos?
Os biomarcadores de sangue para o diagnóstico de demência são uma aspiração antiga e a sua utilização tem sido testada em ensaios clínicos. Cabe-nos agora implementá-los corretamente na trajetória do diagnóstico nos sistemas de saúde sempre numa articulação próxima entre os Cuidados Primários de Saúde e as consultas hospitalares mais diferenciadas. Posso dizer que esta discussão e articulação já está decorrer nalgumas ULS e esta experiência poderá ser transposta para um plano estratégico nacional.

Há possibilidade de esta técnica ser adaptada no sentido de ajudar ao diagnóstico precoce de outro tipo de doenças, além das demências?
No campo da demência temos beneficiado do conhecimento previamente obtido (extremamente sucedido) noutras situações como o cancro, a diabetes ou o AVC. A interdisciplinaridade é fundamental na inovação diagnóstica e na descoberta de novos fármacos – “como vasos comunicantes ou conhecimento em rede”. O benefício mais próximo conseguido na área de Alzheimer parece-me residir sobretudo no desenvolvimento de biomarcadores de sangue para outras formas de demência ou outras doenças neurodegenerativas (Parkinson, por exemplo). Os avanços científicos nesta área têm ainda a potencialidade de ajudar a esclarecer as causas e principais mecanismos destas doenças.

De: https://sapo.pt